Perda de biodiversidade ameaça bem-estar das gerações atuais e futuras – A.B.E.L.H.A.

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Relatórios do IPBES foram elaborados nos últimos três anos por 550 especialistas de mais de 100 países

A pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental Márcia Maués explica como a paisagem nativa e cultivada é essencial para a produção do fruto nativo da Amazônia, altamente dependente de polinizadores

Algumas espécies de abelhas sem ferrão posicionam suas guardas na entrada da colmeia para defender seu reino e suas riquezas da pilhagem de seus inimigos. Não é pra menos, tem cada batalha épica…

Nem todas as abelhas se alimentam de pólen e néctar…

O pesquisador Koos Biesmeijer, presidente da Comissão de Polinização da Apimondia, falou à A.B.E.L.H.A. sobre polinização e agricultura sustentável.

Toda abelha tem ferrão? Confira a resposta no vídeo, mas aqui vai uma dica: a maioria das espécies brasileiras possui ferrão atrofiado, incapaz de machucar alguém.

A Desordem do Colapso das Colônias (DCC) é o fenômeno que tem provocado o desaparecimento desses polinizadores em diversos países, principalmente os do Hemisfério Norte. Cientistas ainda buscam uma explicação para suas causas, mas tudo indica que seja um conjunto de fatores. Confira no vídeo.

A contribuição das abelhas vai muito além do mel: elas são fundamentais para a polinização, processo fundamental para a produção de alimentos. Entenda como funciona.

Os habitantes das Américas têm acesso a três vezes mais benefícios oferecidos pela natureza do que a média global dos cidadãos, porém, a maioria dos países da grande região que vai do polo Norte ao Sul está fazendo uso desses recursos de forma insustentável – excedendo a capacidade dos ecossistemas de se renovar e promover qualidade de vida.

As Américas abrigam 13% da população mundial e sete dos 17 países mais biodiversos do planeta. Além disso, detêm 40% da capacidade dos ecossistemas mundiais de produzir materiais que podem ser consumidos pelos humanos. Por outro lado, produzem quase um quarto da pegada ecológica global (quantidade de recursos que necessária para sustentar a população humana atual) e os recursos naturais estão distribuídos de forma muito desigual entre os habitantes do grande continente.

Tal desequilíbrio tem um impacto mensurável. A comparar a biodiversidade atual da região com a existente no início da colonização europeia, estima-se que em média as populações de 31% das espécies americanas em uma dada área sofreram declínio – número já considerado alto e que pode chegar a 40% até 2050.

O alerta foi feito em março por especialistas da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) em Medellín, na Colômbia, em Reunião Plenária da entidade.

O relatório sobre o status atual da Biodiversidade e dos Serviços Ecossistêmicos nas Américas foi um dos quatro relatórios regionais lançados – os outros foram focados em África, Europa/Ásia Central e Ásia/Pacífico. Também foram divulgados quatro sumários para tomadores de decisão com os principais achados dos documentos.

“O Brasil foi um dos países com maior protagonismo na elaboração do diagnóstico das Américas. Além da minha participação como um dos três coordenadores gerais, quatro dos seis capítulos do relatório contaram com a co-coordenação de brasileiros. Ao todo, entre autores principais e colaboradores, há cerca de 25 pessoas do nosso país envolvidas”, destacou Cristiana Simão Seixas, pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora do diagnóstico regional das Américas ao lado do canadense Jake Rice e da argentina Maria Elena Zaccagnini.

Além de Seixas, há outros cinco membros do Programa BIOTA- FAPESP no rol de autores do relatório regional: Jean Pierre Ometto, Juliana Sampaio Farinaci, Jean Paul Metzger, Ricardo Ribeiro Rodrigues e Carlos Alfredo Joly. Este último, como membro do Painel Multidisciplinar de Especialistas (MEP) da IPBES, ajudou a elaborar as diretrizes que guiaram a elaboração dos quatro diagnósticos regionais.

“Todos estão também à frente da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), aplicando a experiência recém adquirida no diagnóstico das Américas na elaboração do Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, que deverá ser lançado em julho durante a 70ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para Progresso da Ciência (SBPC), em Natal”, ressaltou Joly.

Na avaliação do cientista, que também coordena o Programa BIOTA, o Brasil é “sem dúvida” um dos países americanos que fazem uso dos recursos naturais de forma mais intensiva que o desejável.

“Desde o descobrimento nossa economia é extrativista, e a expansão do agronegócio segue nesta linha. O foco hoje é o Cerrado da região denominada Matopiba: Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia. Embora produzam alimentos, gênero de primeira necessidade, e contribuam enormemente para a balança comercial do país, o fazem de forma predatória”, disse Joly.

Para o coordenador do BIOTA-FAPESP, em vez de simplesmente expandir as áreas ocupadas pela soja ou pelo gado, deveria se pensar em uma paisagem multifuncional, com extensas áreas agrícolas, entremeadas por áreas de vegetação nativa (Reserva Legal, por exemplo) e conectadas por largas faixas de matas ciliares (Áreas de Preservação Permanente).

“Todos sairiam ganhando: seria possível manter boas populações de polinizadores, que aumentariam a quantidade e a qualidade dos grãos de soja; manter uma melhor recarga de aquíferos, principalmente nas áreas de Cerrado, evitando a necessidade de racionamento; manter a biodiversidade e a capacidade de conservação otimizada com a conexão entre fragmentos providenciada pelas matas ciliares. A médio prazo seria uma situação ganha-ganha”, destacou Joly.

Para o presidente da IPBES, Robert Watson, é preciso tornar a agricultura mais sustentável e para isso é preciso acabar com os subsídios governamentais à produção.

“Só deve haver subsídio se for para integrar medidas de preservação ambiental à produção, mas não à produção em si. Precisamos aprender como usar fertilizantes, agrotóxicos e recursos hídricos de maneira apropriada. Na maioria dos locais há uso excessivo. É necessário uma agricultura de precisão, ou seja, dar à plantação exatamente o que ela precisa. Não é trivial, mas pode ser feito”, defendeu Watson.

Seixas destacou que a mudança no padrão de uso da terra e a consequente degradação dos habitats naturais – promovida pela agricultura e pecuária e também pela mineração, pela construção de hidrelétricas e pelo crescimento urbano desordenado – é historicamente e ainda hoje a principal causa de perda de biodiversidade nas Américas e no Brasil.

Outros fatores importantes mencionados no relatório são poluição, espécies invasoras e superexploração dos recursos naturais.

“No entanto, a taxa de impacto das mudanças climáticas sobre a biodiversidade vem crescendo de maneira acelerada e as projeções indicam que por volta de 2050 o clima terá um impacto tão grande quanto a destruição de habitats”, apontou Seixas.

Valor estimado das contribuições da natureza

O diagnóstico das Américas estima que o valor econômico das contribuições da natureza às pessoas da região – focando apenas em recursos terrestres – ultrapasse US$ 24 trilhões ao ano – o equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) de toda a região.

“Esse cálculo é feito com base em modelagem e extrapolação de dados coletados em diversos trabalhos, mas como não considera os benefícios imateriais – como promoção de saúde mental, por exemplo –, acreditamos ser um número altamente subestimado”, afirmou Seixas.

Os autores do relatório alertam ainda que 65% dessas contribuições oferecidas pelos ecossistemas naturais – o que inclui fatores como polinização, regulação do clima, produção de alimentos e muitos outros – estão em declínio. E 21% estão diminuindo fortemente. Cerca de 50% da população americana, por exemplo, já enfrenta problemas relacionados à segurança hídrica.

Seixas chama atenção para o fato de que 61% das línguas americanas das culturas tradicionais a elas associadas estão ameaçadas ou em risco de desaparecerem. “Perde-se com elas toda uma gama de conhecimentos sobre práticas sustentáveis de manejo dos recursos naturais. Temos muito a aprender com as populações indígenas e essa é uma das principais mensagens do documento”, disse.

Para Jake Rice, a principal mensagem é que estamos usando os benefícios da natureza mais rápido do que ela pode repor. “É inevitável esse futuro? Não é a mensagem que queremos passar. Estamos aumentando as áreas protegidas, reabilitando áreas degradadas. Mas temos principalmente que encontrar modelos para tornar nossos meios de subsistência sustentáveis”, disse Rice.

Para Joly, a questão da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos não deve continuar a ser tratada como políticas setoriais da área ambiental. “É fundamental que estas questões saiam deste gueto e permeiem áreas como o Ministério do Planejamento e o Ministério da Fazenda, para que tenhamos políticas econômicas que integrem as questões ambientais com as econômicas e sociais. É este tipo de política multissetorial que pode achar o caminho para um desenvolvimento mais sustentável – não simples crescimento como temos hoje.”

O coordenador do BIOTA-FAPESP afirmou que os custos ambientais e sociais de todas atividades humanas precisam se refletir na economia. “Uma discussão desse tipo, envolvendo todos os atores – ruralistas, pequenos proprietários, ambientalistas, Secretaria da Agricultura, Secretaria do Meio Ambiente, Ministério Público e pesquisadores – vem sendo conseguida no âmbito de um Projeto Temático do BIOTA”, destacou.

Mais informações sobre os relatórios podem ser obtidas em: www.ipbes.net.

Fonte: Agência FAPESP – Karina Toledo

 

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