Há 25 anos, o genocídio em Ruanda

Créditos da foto: Memorial às vítimas do genocídio do Ruanda em Kigali. ( Andy Wallace/Flickr)

Por Esquerda

A 6 de abril de 1994, as notícias deram conta da queda do avião em que viajava o presidente do Ruanda. O nome de Habyarimana era praticamente desconhecido no ocidente. Ao Ruanda pouca atenção seria dispensada. E sobre hutus e tutsis quase nada se sabia no afã do quotidiano.

Só que o que aconteceu a seguir foi inesquecível. Este episódio desencadeou o genocídio mais intenso do pós-guerra, com entre 800 mil a um milhão de mortos em cem dias.

Os extremistas étnicos da maioria hutu culparam os tutsis pelo assassinato do presidente e tornaram a minoria num alvo desumanizado a eliminar da forma mais cruel.

Dos acordos de paz ao “esmagar as baratas”

Claro que esta história não começou com a queda de um avião. É bem mais antiga. A minoria étnica huti tinha sido dominante no país até que, em 1959, um golpe derrotou a sua monarquia aliada do poder colonial belga, levando milhares a refugiarem-se no Uganda. Foi a partir daí que um grupo militar huti, a Frente Patriótica Ruandesa, ganhou força e procurou reconquistar o poder. A 1 de outubro de 1990 passam a fronteira mas são travados pela resistência do exército nacional com o apoio dos belgas e das tropas do ditador vizinho Mobutu. A pressão internacional levou a um acordo de paz.

Os acordos de Arusha de 1993 previam um governo de transição multipartidário, eleições livres, o estabelecimento do estado de direito e o regresso a casa dos refugiados. Nada disto chegou a acontecer. O presidente Habyarimana, condicionado pelas pressões dos países neocoloniais por um lado e pela influência interna da corrente mais extremista do regime, foi obstaculizando a sua implementação. E nem a força de paz da ONU, composta sobretudo por soldados belgas, o fez avançar.

A queda do avião foi assim apenas o pretexto que fez com que os apoiantes do “Poder Hutu” e da “solução final” acabassem com o processo de paz. O genocídio estava já preparada meticulosamente. Havia listas de alvos a abater entregues às milícias Interahamwe e Impuzamugambi, as armas tinham sido distribuídas com a antecedência devida, a propaganda de ódio tinha sido feita com antecedência. No momento decisivo, nas rádios liam-se as listas de alvos e faziam-se apelos aos massacres de tutsis e de opositores do regime. Queria-se “esmagar as baratas”, dizia-se em referência às pessoas da etnia minoritária. E os assassinatos foram facilitados pelo facto do grupo étnico estar descrito nos bilhetes de identidade, segundo a moda colonial belga. A chacina foi acompanhada por violações em massa (num número estimado de entre 250 mil a 500 mil vítimas) e os tutsis não foram as únicas vítimas: jornalistas, intelectuais, políticos oposicionistas, aliados moderados do regime, pessoas de famílias mistas e da etnia batwa, um grupo de pigmeus, cujo extermínio atingiu um terço da sua população no Ruanda.

Perante o genocídio, a FPR entrou novamente no território ruandês com o apoio do exército do Uganda. Chegou à capital, Kigali, a 4 de julho. Novo êxodo se seguiu, desta feita dos responsáveis hutus pelos assassinatos e de populações desta etnia que temiam represálias. Dois milhões de pessoas passaram a fronteira para o então Zaire. Os assassinos escondiam-se entre os refugiados autênticos. O balanço já era então absolutamente trágico: cerca de 70% da população tutsi do Ruanda foi assassinada naqueles 100 dias. E o conflito, com outro nível de intensidade, continuou a partir daí.

Ocidente cúmplice ou negligente?

As forças de paz da ONU, presentes no Ruanda, assistiram ao genocídio. A missão UNAMIR declarou-se impotente para agir e bateu em retirada na sequência da morte de dez soldados belgas. Não se pode dizer sequer que tenham sido apanhados desprevenidos: o comandante da UNAMIR, Roméo Dallaire, tinha enviado em janeiro desse ano um fax para a ONU no qual dava conta da preparação do massacre. Foi impedido de tomar qualquer medida para contrariar o que se sabia que iria acontecer.

O governo francês, aliado do poder dominante, tem sido denunciado nos meios de comunicação social internacionais dominantes por cumplicidade. Do ponto de vista francês, o apoio ao regime justificava-se porque a FPR e o Uganda fariam pender a balança da região para o domínio anglófono. Depois do falhanço da UNAMIR, é a “operação turquesa” liderada pelos franceses que vai ocupar o terreno em junho de 1994. Supostamente serviria para criar zonas de segurança para evitar mais massacres. Mas a operação militar é acusada de não só ter servido pouco para essa finalidade quanto, dado o avanço das forças da FPR, de ter protegido as forças do regime.

Em 2008, o atual governo do Ruanda acusou os franceses de não só terem conhecimento dos preparativos do genocídio mas também de ajudar a treinar as milícias. “Amigos tinham-me explicado que instrutores, franceses em alguns casos, mostravam-lhes como matar com arma branca – cortar a carótida ou seccionar os tendões – eu recusava-me a acreditar”, escreveColette Braeckman, jornalista que esteve no Ruanda nessa altura.

Documentos oficiais dos EUA também admitem que os preparativos eram conhecidos. Mas, depois da Somália, Clinton achou melhor não se envolver temendo um novo desastre.

A venda de armas a um regime cuja retórica era de defesa do extermínio de uma parte da sua população também está em causa. O Ruanda comprou, antes do massacre, por exemplo, armas ao Egito (o ex-secretário-geral da ONU Boutros-Ghali foi o responsável pela venda) e a Israel.

A importação massiva de meio milhão de catanas compradas à China, também deveria ter feito alguém desconfiar que não se trataria do início de uma nova campanha agrícola…

França, Bélgica e África do Sul também constam da lista de vendedores de armas no início dos anos 90. E, mesmo depois do embargo decretado pela ONU, quando já decorria o massacre, há registo de vendas de armas francesas e da empresa britânica Mil-Tec, afirma Eric Toussaint.

Este autor acrescenta também à lista de cúmplices um elemento geralmente poupado: as instituições financeiras internacionais. Estas terão “acelerado o processo que conduziu ao genocídio”. Geralmente, “a incidência negativa destas políticas não é tomada em consideração para explicar o desfecho dramático da crise ruandesa”, defende. Os empréstimos agressivos do FMI e do Banco Mundial multiplicaram por vinte a dívida do país entre 1976 e 1994. O dinheiro ia parar aos bolsos da elite ditatorial do país. Em outubro de 1990 um novo acordo de ajustamento estrutural com as instituições de Breton Woods foi assinado. Cortava nas despesas sociais e nos salários, como sempre, mas fazia vista grossa ao aumento do investimento militar que triplica entre 90 e 92. O congelamento dos preços do café levou à ruína de centenas de milhares de pequenos produtores. O aumento de impostos de consumo idem. A miséria e a violência conseguem ser aliadas fieis.

Para além da responsabilidade direta no intensificar de uma crise social, estas instituições eram assim responsáveis por não fiscalizarem devidamente a utilização dos empréstimos e continuarem a enviar dinheiro para a ditadura gastar em armas.

*Publicado originalmente em esquerda.net

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