Entrevista: “Alcançar a autogestão é um dos maiores desafios dos grupos de reciclagem”

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 Há 17 anos, Roque Spies  trabalha em grupos de reciclagem, e conta que geralmente “as pessoas procuram a reciclagem como último recurso de obter alguma renda”. Entretanto, ressalta que muitas pessoas tiveram a oportunidade de melhorar de vida, através desse trabalho. Ao longo de sua profissão, ele aprendeu que, para obter uma renda satisfatória, é necessário ter “disposição para o trabalho coletivo”. Mas pontua que o trabalho com reciclagem gera muita cobrança da sociedade, que exige trabalhadores “ambientalmente corretos”. Sobre essa questão, ele dispara: “Adquirir esta consciência demanda muita reflexão que é dificultada pela busca do pão”.

Roque Spies vive em Dois Irmãos, onde trabalha como assessor de grupos de reciclagem. Ele concedeu a entrevista a seguir, por e-mail, à IHU On-Line. Confira:

IHU On-Line – O senhor pode falar um pouco sobre sua experiência com os grupos de reciclagem? O que o senhor mais aprende com essas pessoas?
Roque Spies –
 Trabalho em grupos de reciclagem desde 1990, quando tive a primeira experiência numa cooperativa do bairro Roselândia, em Novo Hamburgo. Foi um grande desafio. Em 1994, tive a satisfação de realizar o sonho de fazer a reciclagem na cidade onde moro: Dois Irmãos. A Prefeitura nos apoiou para organizar um grupo e manter o trabalho. Hoje, a Associação de Recicladores de Dois Irmãos é muito visitada por outros grupos de reciclagem, prefeituras, estudantes e outros.

Além de realizar a triagem, a maioria dos plásticos são moídos, lavados e secados. Assim, acontece uma considerável agregação de valor. Para chegar neste ponto, é necessário capacitar e formar todos os associados. Assim, nosso resultado consiste em alcançar uma remuneração mais digna para um trabalho que enfrentou muito preconceito no seu início.

Tenho observado que as pessoas procuram a reciclagem como o último recurso de obter alguma renda. Mas elas só obtêm uma renda satisfatória se tiverem a disposição para o trabalho coletivo, abertas para novos conhecimentos, para a permanente capacitação e formação para a autogestão. Para muitos, a reciclagem deu uma oportunidade de renda e resgate da pessoa. Vejo que acontecem muitas coisas bonitas entre os recicladores, mas também muitas dificuldades, de toda ordem.

Sempre tive a visão de que grupos de Economia Solidária não conseguem andar isolados. Por isso, tenho me dedicado na articulação dos grupos de reciclagem no Vale do Sinos e fiz parte da coordenação da Federação de Associações de Reciclagem do Rio Grande do Sul. Na Economia Solidária, o conhecimento precisa ser repartido. Por esta razão, tenho me dedicado a ajudar outros grupos na sua capacitação para o trabalho e gestão, com mais intensidade.

IHU On-Line – Como é a Economia Solidária aplicada nos grupos de reciclagem?
Roque Spies –
 Os grupos de reciclagem têm feito um grande esforço para manter sua sustentabilidade, tanto no econômico como no social. As experiências são bem diversificadas. Em alguns casos, há fortes parcerias com as prefeituras que realizam a coleta seletiva e entregam o material num galpão, com equipamentos, cedido pela mesma. Em outros casos, os próprios recicladores precisam ir às ruas coletar materiais recicláveis. Assim, tudo fica mais difícil.

Quando existe a possibilidade de obter uma renda razoável, diminui a rotatividade de associados. Então, o grupo começa a fazer história na sua organização interna. Aprender a trabalhar e conviver em grupo, utilizando canais de participação para alcançar a autogestão é um dos maiores desafios dos grupos de reciclagem. Outra questão importante é a ambiental. Há muita cobrança por parte da sociedade, para que os trabalhadores sejam ambientalmente corretos. Mas adquirir esta consciência demanda muita reflexão, que é dificultada pela busca do pão.

IHU On-Line – Quais são as características básicas que deve ter um grupo da Economia Solidária? Quais os valores que devem pautar as práticas de um grupo que a pratica?
Roque Spies –
 Um grupo de Economia Solidária deve ser formado por pessoas comprometidas, autônomas, participativas. O conhecimento de seus membros deve ser partilhado em benefício de todos. As decisões devem ser democráticas, os negócios e a prestação de contas devem ser transparentes, e não deve haver muita diferença na remuneração. Trato igualitário entre homens e mulheres também é importante. Levar em conta as questões ambientais, se engajar na comunidade e ter compromisso na construção de um mundo mais justo são questões fundamentais. Valores como solidariedade, entre-ajuda e cooperação devem estar sempre presentes.

IHU On-Line – Com base na sua experiência, a Economia Solidária é uma alternativa à crise do trabalho assalariado ou constitui uma nova cultura do trabalho?
Roque Spies –
 Parece que a situação está meio confusa. A maioria das pessoas que procuram os grupos de Economia Solidária busca uma alternativa de trabalho. Geralmente, não têm muita disposição para construir a proposta do trabalho coletivo e todas as suas implicações. Como alternativa à crise de emprego assalariado, a Economia Solidária ainda é pouco expressiva nos números. Existem pessoas que criam organizações buscando um novo sentido para o trabalho. Ouço pessoas de grupos solidários afirmarem que não se adaptariam mais a um trabalho assalariado. Eu também.

IHU On-Line – Qual é o perfil do trabalhador da Economia Solidária?
Roque Spies –
 A maioria são pessoas desprezadas no mercado de trabalho, seja por idade, por falta de qualificação ou por inexistência de postos de trabalho. Ultimamente, o número de jovens também tem aumentado. Há também um grupo de pessoas com boa formação atuando em entidades e universidades comprometidas com a causa. Também alguns gestores públicos.

IHU On-Line – Qual é sua opinião sobre as trocas dentro da Economia Solidária? Elas são importantes? Por quê?
Roque Spies –
 Acho que são importantes porque mobilizam as pessoas e grupos pela causa da Economia Solidária. Valorizam a criatividade e alimentam valores inerentes à Economia Solidária.

IHU On-Line – Quais são as diferenças entre teoria a prática quando se fala de Economia Solidária?
Roque Spies –
 É desejável que a teoria brote da experiência prática e esta ilumine para uma nova prática. O que se observa é que há bastante discurso, aprendido em livros e não experimentado na prática. Preciso haver esta coerência. Os trabalhadores dos grupos de Economia Solidária precisam ter a oportunidade do contato com os pensadores para alimentar sua reflexão sobre o fazer.

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